Imagem: Jooliargh – Flickr

Casamento

Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não.
A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como «este foi difícil»
«prateou no ar dando rabanadas»
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos pela primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

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ADÉLIA PRADO

Com o quotidiano como tema central, Adélia Luzia Prado Freitas escreve poesia sobre as coisas mais simples de uma forma perplexa e encantadora. Dá lugar de destaque à figura feminina que retrata de uma forma global, como intelectual, como mãe, como esposa, como dona de casa. Adélia foi professora durante 24 anos, dedicando-se depois apenas à escrita, contando a sua obra bibliográfica com poesia, prosa, antologia, entre outras parcerias com escritores contemporâneos. Esta escritora brasileira nasceu em Divinópolies, a 13 de Dezembro de 1935, casou em 1958 e é mãe de cinco filhos.

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Lindo poema, que só uma mulher com muita sensibilidade para valorizar os momentos simples da vida a dois poderia criar.

Serve como exemplo a seguir: das mínimas coisas compartilhadas, retiremos sempre o máximo que puder. O nosso coração e relacionamento agradecem!